quarta-feira, 21 de março de 2018

Vende-se uma alma

    A noite em meu quarto escuro eu ouvia de tudo que vinha da rua.
    – Quer um bagulho, moço. Vai ficar olhando ou quer transar um pouco. Faz tempo que não mato ninguém e estou ficando doido...
    Uma rua de desesperados de uma grande metrópole do interior do estado de São Paulo e nessa rua localizava o meu quarto de pensão. O único luxo que tinha ali era que não precisava dividi-lo com outros. Acho que era uma cortesia da proprietária que às vezes batia no meu quarto a noite. Mas os favores sexuais paravam aí, isto é, privacidade no quarto pois de resto tinha que esperar na fila do banho e pagar pela refeição. A privacidade do quarto permitia-me trabalhar altas horas.
    Eu estava quebrado financeiramente. Os poucos amigos que restavam sempre arrumavam qualquer bico para fazer. Não aguentava mais viver sempre no limite. Meu pai desgraçou minha família destruindo todo o nosso patrimônio antes de sumir pelo mundo. Minha mãe morreu dois anos depois se entregando às drogas. Mas consegui estudar o básico e fazer cursos técnicos o que me garantiu bons empregos até eu empreender no comércio. O negócio cresceu razoavelmente porém a ganância fez eu investir cada vez mais até que alguns grandes clientes começaram a quebrar e com isso não me pagavam e eu comecei a dever a fornecedores. Tudo virou uma bola de neve. 
     Num dia exaustivo com a noite mal dormida e dores nos braços por mais um bico que fiz, o telefone tocou. Um dos meus amigos me ofereceu um serviço para eu trocar as luminárias de seu estabelecimento em um shopping ao qual aceitei prontamente. Passei lá para fazer o orçamento e ao sair esbarrei-me em uma mulher. Pedi desculpas pelo incidente  até que reconheci a pessoa. Era uma velha amiga. Ela estava bem vestida e linda.
    – Oi Michel. Há quanto tempo.
    – Nossa, Marcielle...
    Fiquei alguns segundo admirando-a. Ela sempre foi uma mulher comum. Mas hoje ela estava tão radiante... Bem mais linda em seus 38 anos do que ela nunca foi antes. Depois daqueles segundos eu continuei:
    – Você está tão diferente.
    – Pra melhor, né?
    – Sim, claro. Fico contente em te ver. Nossa! Você tá linda.
    Ela baixou a cabeça e ficou pensativa por um momento. Levantou o olhar para mim e perguntou se eu estava a fim de almoçar naquela hora com ela. Fiquei sem jeito pois a grana estava curta demais para esbanjar num almoço de shopping. Até comer no Giraffas estava caro para mim. Eu estava muito desgraçado na vida e resolvi abrir o jogo:
    – Não posso te acompanhar. Eu tenho um compromisso.
    Ela sempre me conheceu bem. Acho que os desgraçados se conhecem bem apesar dela não ser mais uma. Pegou na minha mão e disse:
    – Vamos lá comigo. Eu pago. Vem?
    – A gente sempre rachou um lanche, né? Eu aceito.
   Entramos num restaurante tão chique que imaginei que a conta ali daria para pagar minha pensão por dois meses. Ela foi bem recebida como todo cliente assíduo de um lugar. Ela ainda conhecia meus gostos e sugeriu um prato que aceitei. Comer omelete com batatas para mim já seria um banquete. Mas comer aquele filé de três dedos de espessura acompanhado de um vinho que até hoje não sei pronunciar o nome era uma refeição divina. Contei minha trajetória de vida e meu desespero. Ela contou também sua história que não conhecia depois que nos afastamos. Eu a conheci no colégio quando fomos obrigados a fazer dupla num trabalho de geografia. Conseguiu para mim meu primeiro emprego junto a empresa onde ela trabalhava. Isso ajudava a manter as despesas de casa que minha mãe parou de contribuir. Só não moramos na rua e passamos fome nesse período porque a prima de minha mãe deixava-nos morar numa casa de fundo. O marido dessa prima não gostava dessa situação e quando minha mãe morreu, fazia de tudo para eu sair de casa ao qual eu fiz ao completar 18 anos.
    – Estou desesperado, Marcielle. Já pensei em me matar. Tudo que tento fazer dá errado.
    – Eu posso te ajudar. Quer ser um dos meus vendedores?
    – Nossa! Fico grato pela proposta e quero saber a respeito. Mas o meu desespero não é apenas emprego. É dinheiro. Muito dinheiro. Além de dever aos bancos, devo a agiotas que se descobrirem onde estou eles vão querer até me matar. Já tentei de tudo. Loteria, igreja e até pensei em roubar um banco. De preferência o banco que eu devo.
    Rimos depois dessa. Ela prontificou a emprestar uma boa quantia de dinheiro.
    – Fico grato novamente. Mas esse dinheiro não daria para pagar um décimo dos juros. Eu aceitaria o seu dinheiro. Porém, fique sabendo que devido as circunstâncias eu nunca iria te pagar... Pensando bem... Não posso aceitar. Eu estou desesperado. Já tentei muita coisa para reerguer-me. Se o diabo existisse eu venderia minha alma a ele.
    Os olhos de Marcielle brilharam quando eu disse isso. Apesar de toda a minha tristeza, ela não escondeu uma alegria no olhar.
    – Parece que está feliz com minha bosta de vida. Este restaurante... Você pagando por tudo isso para esfregar na minha cara? O que eu te fiz? Não lembro de também ter feito algo de ruim para você.
    Eu ia dizendo aquelas palavras sem perceber que elevava o tom da voz. Marcielle segurou minha mão que tentei afastar e olhou firmemente nos olhos e disse:
    – Eu fiquei contente por algo que você disse que jamais pensaria ouvir. Praticamente você salvou minha vida. Eu gosto da vida que levo. Na verdade eu posso até pagar suas dívidas. Mas isso tem um preço.
    – O que eu disse pra você ficar tão feliz? Eu só reclamei da vida e não disse nada de bom. Nada de bom para te oferecer.
    Ela chamou o garçom e pediu dois cafés. Depois falou para não deixar ninguém sentar perto de nós. A autoridade em sua voz perante o garçom só confirmou uma coisa que eu suspeitava: Ela era dona do local.
    – Querido Michel. Você não acreditava em Deus quando éramos jovens. Admiro por tentar ir pedir ajuda a algum padre ou pastor no momento de desespero. Mas você venderia sua alma preciosa ao Senhor Lúcifer?
    Aquilo me arrepiou. Eu rio em filmes de terror. Apesar de não acreditar mais na existência do sobrenatural, os olhos dela eram hipnóticos. Entendo seu sucesso nos negócios. Um homem aceitaria qualquer coisa que ela vendesse. Mas naquele momento ela queria vender algo que eu não acredito que existe que é minha alma a uma pessoa que acredito que também não existe. Minha amiga... Nunca estive apaixonado por ela e não era por ela não ser  bonita na época. Eu sempre fui mulherengo e Marcielle era como se fosse minha irmã. Mas ali na minha frente estava uma mulher que se eu não conhecesse antes, apaixonaria imediatamente. Eu exploraria aquela mulher rica e me daria bem. Poderia até ficar com ela pelo resto da vida pois o dinheiro comprou até a sua beleza atual. Fiquei assustado de repente e tive uma vontade de sair de lá. Mas eu precisava saber o que aconteceu com Marcielle estar assim e porque uma proposta tão surreal. Pelo que eu lembre, ela também não demonstrava nenhuma admiração por igrejas e deuses.
    – O que você não contou de sua trajetória de vida, Marcielle? O que você fez?
    – Você sabe o que eu fiz. Eu estava tão desesperada quanto você está hoje. Mas no pior dia de minha vida, depois de muito choro eu gritei muito. Xinguei deuses e homens. Na rua havia um outdoor de um filme de terror. A imagem era de um demônio. Eu olhei para aquela imagem monstruosa e falei ferozmente que se ele me der tudo que eu quero, eu daria minha alma em troca pois não tinha mais a quem recorrer. Voltei para minha casa. Tomei um banho e fui para minha cama. Quando acordei...
    – O capiroto estava do seu lado? - perguntei a ela interrompendo no meio da frase.
    Com os olhos fixos nos meus... Meu Deus! Se ela tivesse aquele olhar hipnótico quando nos conhecemos, eu teria me apaixonado por ela na adolescência. Mas com os olhos fixos nos meus ela suspirou com alegria e disse:
    – O Senhor Lúcifer não gosta de ser chamado assim. Mas sim. Ele estava na beirada da minha cama. Um homem muito lindo. Ele veio pessoalmente. Eu sei que ele só manda intermediários. Me sinto tão especial... Eu sabia quem era. Uma sensação estranha. Não senti medo. Eu estava eufórica. Perguntei se ele veio buscar minha alma.
    ″Não quero a sua alma. Ela já me pertence. Eu quero a alma que está por vir. A alma de seu filho que será gerado através do amor que sente pela pessoa que você sempre foi apaixonada e essa pessoa também oferecerá a sua alma″. 
    Marcielle continuou:
    – Perguntei a ele se não fosse possível eu encontrar o amor de minha vida e ele respondeu que minha vida acabaria quando eu completasse 40 anos. Mas com um filho fruto do meu amor eu poderia viver até meu corpo velho não aguentar mais. Eu tentei me apaixonar. Tentei engravidar desses outros amores. Fiz tratamento de fertilidade e a gravidez não veio com nenhum homem que eu deitei. Como uma boa vendedora, vendi muitas almas a Lúcifer. Meus homens... Meus falsos amores estão vivos e ricos.
    Marcielle olhou novamente para mim e começou a falar novamente:
    – Você não terá como se arrepender. Se vender sua alma ao Príncipe, mesmo que não seja o pai escolhido para meu filho, estará bem. Estará rico.
    – Mas porque Lúcifer pessoalmente vai querer um filho seu? Tantas mulheres no mundo. Por que você nunca disse que era apaixonada por mim? Nossa amizade de irmão era o que impedia de falar? Era seu medo que eu te abandonasse por eu ser mulherengo desde a adolescência? Não é muita crueldade oferecer a alma de seu filho ao diabo? Se é que ele existe mesmo.
    – Você não tem nada a perder. Não me preocupo com meu filho. Ele será o corpo vivo na terra para receber o espírito de Lúcifer. É por isso que os anjos caídos querem nossas almas. Lúcifer não divide um corpo humano com uma legião como fazem os demônios inferiores. Ele precisa de um corpo puro e exclusivo. Meu filho será o homem mais poderoso do mundo. Corpo de homem e o espírito do Príncipe da Luz. Lúcifer. A estrela da manhã. Aceite vender sua alma a ele. Depois de nossas mortes, não seremos castigados no inferno. Prestamos um grande favor a ele. Mas se eu não ter o filho de quem eu amo... Serei torturada como bilhões de almas estão sendo.
    – Você só quer transar comigo, Marcielle. Não precisa dessa bobagem que você inventou sobre Lúcifer, alma, filho e os cambau.
    – Não estou inventando. Ele existe. Só quero que você invoque-o e converse com ele. Na minha presença ele virá. Invoque-o, por favor...
    Não sabia se levantava e ia embora ou sentava ao lado dela para confortá-la. Já invoquei um milhão de vezes deuses e seus anjos no momento de fraqueza e nada aconteceu. Não tem como acreditar em diabo. Mas tive uma ideia e falei:
    – Ele sempre aparece do mesmo jeito? Sempre da mesma aparência e em qualquer lugar?
    – Na minha presença ele sempre aparece. Nas negociações são raras. Mas eu acredito que ele virá. Faça um teste. Invoque-o. Chame pelo nome e diz que quer negociar a sua alma em troca do que você tanto deseja.
    Eu fiquei parado e pensativo. O que tinha a perder? Eu não me importo assim com um filho pois nunca os desejei. Imaginei que se fosse verdade eu pediria sempre o sucesso pois não aguentava mais derrotas. Dinheiro, muita saúde e viver bem até meu corpo velho não aguentar. Queria viver até os 100 anos idade de pau duro e muita grana. O que eu tinha a perder?
    – O que eu tenho que fazer? Onde a gente vai pra chamá-lo?
    – Onde você quiser. Pode ser aqui se desejar.
    Deu vontade de testar toda aquela loucura. A vontade de chamá-lo ali mesmo no restaurante Le Four du Prince foi imensa. O restaurante era dela mesmo e a vergonha não seria minha.
    – Invocarei seu Príncipe aqui mesmo. Já acabo com tudo isso. Dá uma dicas aí. Tenho que cortar a palma da mão com a faca e com sangue desenhar um pentagrama na mesa e subir nela? O que eu tenho que fazer?
    Marcielle olhou para um dos funcionários e este simplesmente foi até a porta do restaurante e trancou. Havia muitos clientes ainda no local e todos pararam de comer e conversar. Estranhamente algumas mulheres retocavam a maquiagem e ajeitavam os cabelos. Todos os garçons tiraram os aventais. O silêncio era de arrepiar. Eu sempre rio nos filmes de terror. Mas aquela cena foi muito mais assustadora. Pensei que todos ali eram loucos fanáticos  de uma seita e eu seria o animal de sacrifício. Pegadinha do Faustão ou Silvio Santos?
    – Grite, Michel - disse Marcielle. Grite com o coração. Desabafe e rejeita tudo que é sagrado e mesmo que não acredite nessas divindades, xingue-as. Blasfeme. Diga o que você realmente quer e ofereça sua alma ao Principe da Luz que ilumina as trevas da legião dos anjos caídos. Invoque Lúcifer. O verdadeiro senhor deste Mundo. Não tenha medo, Michel. Temer pra quê?
    Levantei-me. Uma força apoderou-se de mim. Senti um grande ódio. Lembrei de todas as coisas ruins que aconteceram comigo. Desde o primeiro sorvete que caiu da minha mão passando pelo abandono de meu pai, a morte de minha mãe e a falência de meus negócios. Gritei:
    – Eu te odeio, pai. Quero vê-lo morrer na minha frente agonizando de dor. Se já estiver morto, no inferno procurará a sombra da sola do meu sapato. Odeio todos aqueles que me abandonaram. Eu quero aquilo que vocês mais veneram. Eu quero o seu Deus. Eu quero o seu Deus que chamamos de dinheiro. Eu quero ser respeitado e bajulado. O meu dinheiro será somente para meu prazer que terei até o fim da minha vida nesse mundo que curtirei com plena saúde. Apareça, Lúcifer. Dê-me tudo que o meu coração deseja e em troca darei a minha total fidelidade e devoção. Nunca acreditei em nada sobrenatural. Mas se você aparecer aqui e conceder tudo que eu desejo, em troca terá a minha alma e muitas outras se assim o desejar. Venha Lúcifer. Eu invoco-o.
    Não percebi, mas meu olhos lacrimejavam. Enxuguei as lágrimas com a manga da minha camisa e comecei a respirar mais aliviado. Olhei ao redor procurando alguém que poderia ser diabo e não vi ninguém diferente. O calor do meu corpo começou a abrandar e comecei a rir de vez em quando. Balançava a cabeça pensando na loucura que acabei de fazer. Aos poucos a lucidez ia apoderando-se de mim e já pensava uma maneira de fugir dali caso realmente aqueles fanáticos desejassem me sacrificar. Comecei a sentir medo. Todos olhavam em minha direção e olhavam com alegria. Alguns curvaram-se inclusive Marcielle. Foi aí que percebi que eles olhavam em minha direção mas não fixavam o olho em mim. Os olhos estavam apontados para algo que estava atrás de mim. Pensei o pior. Mas acalmei-me novamente. Aceitei a minha morte. Eu tinha medo de tirar a própria vida e por isso nunca cometi suicídio. Mas alguém fazendo isso por mim era um alívio. Eu estava em paz. Resolvi olhar para trás para ver o rosto do meu algoz que iria empalar-me em honra ao seu lorde Lúcifer.
    Foi uma grande surpresa. Estava diante de um homem alto de 2,03m. Pele muito branca, olhos castanho claros, cabelos longos e negros. Vestia roupas normais de um visitante de shopping com excessão de um lenço amarrado no pescoço que tampava uma marca em seu corpo que não consegui decifrar. Aquele homem bonito pegou os meus braços e a dor que sentia da noite anterior sumiu instantaneamente.  Que sensação estranha para um homem hétero como eu. Eu o achava um homem muito atraente e senti que ele poderia apoderar-me feito mulher. Uma de suas mãos se posicionou em minha nuca e outra na minha fronte. Foi aí que senti a segunda experiência paranormal. Uma sensação estranha melhor que o alívio das dores dos meus braços. Ele entrou em minha mente e contou toda a sua história em alguns segundos. Ele sempre tem um corpo para recebê-lo neste mundo. Algumas vezes ele até nasce junto com uma criança e cresce sem saber quem realmente é. As almas vendidas são dos filhos de quem vendeu. Esses filhos são hospedes de anjos que foram fieis a Lúcifer. Aos demônios inferiores só restam as possessões ou encarnar-se em animais domésticos. Descobri porque eu e Marcielle somos tão importantes para ele. Numa loteria genética os genes ancestrais meus e dela combinam-se formando um DNA muito próximo dos nefilins. Ele contou toda sua história e os mitos, lendas e religiões pagãs e cristãs começaram fazer sentido. Naquele momento eu acreditava em Deus, Jesus e o Espirito Santo. Sabia que os poderes da Trindade eram até superiores. Mas os prazeres... O ser humano é escravo do prazer. Lucifer nesse momento me deu a escolha. Eu teria que negar a Trindade e amar Lúcifer. Foi quando senti uma pausa e refleti. Abri a minha boca e perguntei:
    – Com que nome eu batizo o meu filho?
    Ele sorriu, segurou o meu ombro e beijou a minha boca. Me olhou com olhar carinhoso e disse:
    – Eu gosto do seu nome, pai.
    Todos aplaudiram e fizeram fila para desejar felicidades a mim e Marcielle. Lúcifer sentou-se numa mesa e pediu que lhe servisse o vinho de sempre e preparasse um carret de cordeiro.  A porta do restaurante foi reaberta e de vez em quando entrava alguém que vinha direto a nossa mesa desejar os parabéns. Meu amigo que ofereceu um trampo no shopping apareceu também e rindo perguntou se eu ainda instalaria suas luminárias. Confirmei que iria. Seria o meu último trabalho de pobre e seria um prazer... Seria um hobby.

    Um ano se passou e fui registrar meu filho. O escrivão perguntou:
    – Como vai se chamar a criança?
    – Ele terá o meu nome. Michel Angelo da Luz Jr.

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